domingo, 23 de junho de 2013

Atrelado para bicicletas

Ao longo desta crónica vou tentar explicar as diversas fases da metamorfose que rejuvenesceu e alterou por completo, tanto a finalidade como o próprio atrelado, o qual é de fabrico português (fábrica Campimar, que se localizava em Cantanhede, já inexistente).  

Começo então pela matéria-prima: atrelado de marca Campimar, modelo Tróia 2001. Trata-se de uma auto-tenda fabricada em 1978. Este atrelado começou por morar no Barreiro, na casa do meu padrinho de nascimento, José Rosa, que com o passar dos anos deixou de o utilizar, levando-o para um terreno que possui nas imediações de Abrantes. 

A vontade de ter um atrelado para transportar bicicletas andou uns bons 2 anos a matutar dentro da minha cabeça, mas faltava o melhor - o graveto (€€€). Nesse período de tempo vi muitos anúncios na net, visitei fabricantes, fábricas e lojas de venda de atrelados. Por esta altura nem sequer tinha bola de engate na minha carrinha!

Cheguei um dia a casa dos meus pais e deparei-me com esta beleza estacionada no quintal. Pensei: "É isto mesmo que procuro!" Estava ali a base para o meu projeto, fruto da generosa oferta do meu padrinho ao meu pai, com quem negociei as condições desta re-oferta (é secreto... eh eh) para a minha pessoa.

Legalidade dos reboques:
Como vi diversos atrelados personalizados e/ou feitos de raiz, mas querendo criar algo fruto da minha imaginação, porém dentro dos limites da lei portuguesa, até porque sou polícia e gosto e devo dar o exemplo, optei pela solução mais simples e barata, ou seja, um atrelado com um peso bruto (atrelado + carga) não superior a 300kg, sendo que a minha carta de condução é de Categoria B (ligeiros). Estes limites e pressupostos permitem utilizar a matrícula do veículo que o reboca e está isento de quaisquer tipos de inspeções. Para estes ou outros reboques que ultrapassem estes limites, têm mais informação em IMT (Instituto da Mobilidade e Transportes) no seu site.

O meu objetivo inicial era fazer um atrelado para transportar, no mínimo, 5 bicicletas. Porquê 5? Porque é a lotação normal de um carro ligeiro (5 passageiros = 5 bêtetistas). A previsão de viajar impõe a existência de segurança nos locais onde se parqueia, o que nem sempre acontece, daí ter de construir um atrelado que fosse fechado. Mais uns meses de planeamento se passaram...

Para "emagrecer" o chassis, comecei por cortar as 4 sapatas originais que se encontravam nos 4 cantos do atrelado e já estou arrependido, pois deveria ter mantido as 2 da parte traseira, para quando o reboque estiver desengatado do carro se possa manter estável com maior segurança. Mas ainda posso vir a soldá-las um dia destes.

O chassis demonstrava robustez e o material original (ferro) não apresentava quaisquer podres, unicamente ferrugem.

A enorme e pesada caixa de madeira contendo a tenda já não fazia falta e foi a 2.ª fase do desmantelamento, aliviando uns quilos valentes ao peso bruto do atrelado.

O engate tinha de ser desmontando e substituído. A roda de assentar no chão também já tivera os seus dias e precisava ser trocada por algo mais moderno.

Por forma a manter o elo ao passado, a chapa de origem do chassis, originalmente cravada a rebites na lança, foi retirada e guardada. Após os trabalhos de transformação, foi novamente colocada, agora na zona traseira e lateral direita do chassis, conforme poderão ver nas últimas duas fotos desta crónica.

Os pneus foram também para o lixo, pois apesar de ainda terem rasto, já haviam perdido há muito as qualidades e segurança da borracha original. Optei por comprar uns pneus recauchutados, por norma utilizados nos saudosos Austin Mini.

Continuando o regime de "emagrecimento" do atrelado, cortei mais algumas travessas de ferro que originalmente serviam para o suporte da caixa da tenda, entre elas as que fazem o resguardo exterior das rodas, pois após um teste verifiquei que se tornava difícil substituir um pneu/roda, principalmente depois de cortadas as sapatas de estabilização/equilíbrio de estacionamento.


Seguiu-se a remoção da ferrugem para aplicação de tinta. Comecei por utilizar lixa (à mão), mas como demorava muito e fazia doer as mãos acabei por me decidir pela utilização de um berbequim e de uma rebarbadora com um aplicador e disco apropriados para o efeito.

Para não começar já a fazer agradecimentos a todos os que colaboraram neste projeto, deixo os créditos para o final desta crónica.

Depois de comprados os pneus, 2 para rodar + 1 para suplente, aproveitei para dar nova vida às jantes, tendo-as lixado e pintado de branco, mas também aqui falhei, pois deveria ter feito isso com os pneus desmontados e em vez de utilizar tinta em spray, deveria ter sido pintado à pistola, pois o resultado final é bem melhor e o trabalho acaba por ser quase o mesmo.


Seguiu-se a pintura do chassis. Primeiro com a aplicação de 2 camadas de primário e depois com 2 camadas de tinta, tudo isto socorrendo-me de latas de spray.

O resultado começou a aparecer e a dar-me bastante ânimo para continuar...

Com receio de que o primário spray fosse pouco, dei também primário à trincha e de diversas marcas (e cores...). Para que as medidas do atrelado não ultrapassassem a largura de um carro normal, a opção foi a de colocar as bicicletas todas num só sentido (a da marcha do atrelado), dispostas lateralmente, porém, com os guiadores descentrados para não baterem umas nas outras.

Para manter as bicicletas direitas (de pé) e completamente montadas, procedeu-se à montagem de vigas sobre o "chão" do chassis, mas também no topo para servir de batentes, evitando que se movimentem durante o andamento.


No decorrer das montagens foram sendo feitos testes por forma a garantir a funcionalidade e só após isso foram realizadas as soldaduras definitivas.

No decorrer dos trabalhos decidimos introduzir uma alteração à lança do reboque, através da realização de um "pescoço de cavalo", que descreve um Z e aumentar o seu comprimento/afastamento entre o atrelado e o veículo, o que permite fazer curvas apertadas e manobras com maior segurança e simultaneamente o engate em carros mais altos ou mais baixos. 

Seguiu-se o reforço da suspensão, que originalmente é algo "fraca", cujo termo técnico não sei identificar e que prima pela ausência de molas. Daí que optei por comprar e montar umas molas com o objetivo de dar suavidade e resistência ao novo conjunto que se iria instalar, justificado ainda pelo maior peso que passará a ter superior à original caixa de madeira. 

As medidas foram então definidas da seguinte forma:1,931mt de comprimento, 1,420mt de largura e 1,360mt de altura.

Para cobrir o atrelado ponderei os objetivos dessa cobertura: leveza (para não ultrapassar os 300kg do peso total), durabilidade, segurança contra assaltos, resistência ao vento, preço e estética. A minha escolha recaiu no painel sandwich de 30mm. A possibilidade de poder vir a servir igualmente de local para dormida, foi igualmente tida em conta. Para preencher os espaços entre as vigas, utilizámos tábuas de andaime, pois são bastante resistentes e espessas, porém são muito pesadas. Foram alvo de um tratamento adequado.

Para fazer a estrutura que mantém os painéis, utilizámos calhas em U de chapa. Porque o atrelado poderá vir a ser puxado por diversos tipos e modelos de veículos, uns mais baixos ou estreitos que outros, decidimos dar-lhe alguma aerodinâmica, mas de modo que ficasse igualmente bonito esteticamente, daí que optámos por cortar a quina da parte frontal.


Após o desenho de toda a estrutura, procedeu-se à soldagem e posterior tratamento com primário.

Relativamente à roda suplente, mantivemos o suporte e localização original, na ligação da lança ao chassis, aproveitando para "esmagar" o painel entre o suporte e as vigas, reforçando assim a fixação de toda a estrutura.

Durante todo o projeto foram-se sempre fazendo experiências diversas por forma a confirmar que tudo estava conforme o previsto, pois o desenho estava somente na minha cabeça, uma vez que não tenho jeito para o lápis foi um pouco difícil conseguir que os restantes colaboradores seguissem a 100% a ideia original, que se foi adaptando em função das necessidades e realidades.

Foi ponderada a opção de colocar as rodas fora do "caixote", mas achei que esteticamente ficavam melhor no interior, motivo pelo qual aproveitei os originais guarda-lamas em fibra de vidro, que foram montados no interior do reboque, com novas bases de aperto.

O formato da abertura foi outro ponto que deu que pensar. No final optámos pela montagem de porta única, abrindo na vertical com a ajuda de 2 suspensões provindas de uma porta de bagageira de uma Ford Trânsit, pois tem resistência e força suficiente para oscilar uma porta deste peso (painel sandwich de 30mm + estrutura em U de alumínio) com as medidas de 1420mm X 1360mm.

No teste de batente traseiro tudo estava conforme previsto. Por forma a reforçar a imobilização das rodas traseiras, optámos pela montagem de uma prateleira em madeira do género de uma caixa, com a dupla funcionalidade de transportar no seu interior malas e ferramentas diversas, por forma a viajarem devidamente acondicionadas. Na parte de baixo montámos parelhas de tubos em inox em formato de U invertido e com rosca nas pontas (interior e parte de cima da plataforma), para manter as rodas entre elas.

Desde início tivemos em conta que o reboque teria de poder transportar bicicletas de todos os tipos e modelos, com especial atenção para as medidas das rodas atualmente existentes: 26", 27,5", 28" e 29". Os testes tiveram sempre de ser feitos utilizando 5 bicicletas de roda 29", para a lotação máxima e que simultaneamente têm as medidas maiores.

Após diversos testes, confirmámos que apesar dos guiadores ficarem descentrados, os guiadores das bicicletas que ficam nas extremidades, principalmente os mais compridos (das 29"), batiam nas "paredes" laterais do atrelado, o que impõe que a cada transporte os avanços de guiador tenham de ser desapertados para que os guiadores fiquem no enfiamento dos quadros e rodas.

Depois de fechado todo o atrelado, o conjunto ficou bastante harmonioso. Para a colocação da chapa de matrícula adquiri um painel completo que já vem assim de origem, contendo todas as luzes e ligações necessárias, o que nos evitou ter o trabalho extra da ideia original que era a montagem de farolins independentes, à semelhança do que se faz nos carros. Para levar a energia deste a lança do atrelado até à traseira, soldaram-se uns tubos à parte de baixo do chassis, no interior dos quais passámos os fios de ligação.

O sistema de fecho também foi bastante pensado. Optámos pela montagem de uma fechadura do género das utilizadas nos portões de garagem e fabricámos uma cunha que encaixa no fundo do atrelado e chassis, impedindo assim a abertura fácil. Simultaneamente possibilita a aberta pelo interior através de um punho rotativo para os casos em que tenhamos de dormir lá dentro. 

Terminado o atrelado virei-me para a instalação da bola de engate na minha carrinha. Aqui temos 2 opções: recorrer a um profissional ou comprar o kit e montá-lo nós próprios.

A montagem não é complicada e no youtube encontramos facilmente ajuda nesse sentido. Há que ter em conta que é necessário ter conhecimentos de eletricidade (auto) para a instalação da caixa de derivação de iluminação para o reboque, mas também algum bom desempenho a nível de montagem/desmontagem de para-choques, farolins... O kit de reboque encontra-se com alguma facilidade à venda na internet para quase todos os modelos de carros, porém os acessórios para a parte elétrica é na maioria das vezes vendida separadamente. Os que encontrei mais baratos foi em França... não divulgo para não influenciar.

Aconselho sempre a montagem (total) do kit de reboque por profissionais. Além de darem garantia de todo o trabalho, em pouco mais de 3 horas têm o trabalho feito e o que se poupa em relação a comprarmos nós o material é por norma à volta de 100 euros (não contando com a mão de obra).

Também para ajudar o pessoal que tem reboques destes ou calhas elétricas de iluminação auto semelhantes, deixo aqui uma preciosa ajuda que é o esquema de ligação. Por norma sobram sempre 1 ou 2 pinos (nevoeiro e/ou alimentação interior). No caso deste não tem iluminação interior (uma falha que ainda está a tempo de ser resolvida).


O projeto quase final, mas já a rodar, foi desde logo objeto de culto. Todos ficaram deliciados em ver a obra feita, fruto de uma ideia e projeto original.

A posição da roda de suporte montada na lança foi também alvo de alterações, por forma a subir o suficiente para não bater no chão quando o pavimento tem irregularidades de maior monta.

Seguiram-se testes de atrelagem e condução do atrelado com viaturas diversas.

Para se definir o que aplicar no reboque, optámos pela realização de modelos através de fotos.

Os efeitos e logótipos que estão no atrelado não estão lá na realidade. É uma montagem feita no computador para se perceber o efeito que terá após a aplicação da película. 
Na decoração pretendemos divulgar não só o nosso Clube, mas também o nosso evento mais famoso, além de não poder faltar a imagem do nosso equipamento e dos principais implicados no projeto. 

Desenvolvemos diversos contatos no sentido de arranjar patrocinadores, o que não foi mesmo nada fácil, mas lá se conseguiu uma pequena ajuda.

A fase seguinte foi a aplicação de vedantes na estrutura, seu tratamento e pintura.


Procedeu-se a afinações diversas e pequenos ajustes até que o atrelado ficasse pronto para a fase final, que foi a aplicação de película.



Para terminar, refiro que na parte interior e traseira do atrelado, foram aplicados no chão acessórios metálicos com cintas elásticas para cada roda no lugar, alem de terem sido soldados na parte anterior e interior das vigas que estão soldadas ao chão do chassis, pequenos ferros cilíndricos com o objetivo de prender borrachas de gancho que dali partem dando a volta à testa do quadro e voltando, forçando cada bicicleta a "agarrar-se" ao chão, evitando quaisquer movimentos laterais ou outros. Foram também soldados à estrutura na parte interior e superior, diversas argolas metálicas para se fixarem elásticos ou cordas quando necessários.

Após a escolha dos logótipos e fotos a utilizar, fizemos o enquadramento e redimensionamentos necessários aplicáveis à estrutura. A existência de ângulos nas paredes do painel sandwich foi um trabalho acrescido para a aplicação da película.

Saliento que todas as porcas das rodas foram por nós fabricadas propositadamente para o efeito.

O trabalho final foi do agrado de todos e está aí à vista. Desde que foi terminado, este reboque já fez uns milhares de quilómetros, tendo-se estreado com uma ida até França.

MATERIAL UTILIZADO
3 pneus, 3 camaras de ar, 3 tábuas de andaime, latas de tinta em spray, latas de tinta e primário, trinchas, diluente, betume, silicone, lixa, discos de rebarbadora, elétrodos, varão, 5 cintas elásticas, 2 molas de suspensão, 1 placa de iluminação elétrica, 1 ficha de engate, 1 engate, 2 amortecedores porta traseira, 1 fechadura porta traseira, painéis sandwich 30mm e 40mm, calhas em U de chapa, 1 cadeado roda suplente.


CRÉDITOS
Reportagem
Fotos e texto: João Valério

Realização do reboque
Ideia original: João Valério
Desmontagem/montagem/pintura/...: João Valério, Filipe Rodrigues e Adriano Vicente
Serralharia: Joaquim Rodrigues e Rui Santos
Grafismo: Jorge Rabaça
Aplicação de película: Laser Site


NOTA FINAL: Espero que este trabalho vos inspire e/ou vos ajude nos vossos projetos que teimam em sair do papel. Agradeço a vossa opinião e/ou comentários a esta mensagem, no fundo desta, clicando em "Comentários". Obrigado a todos pela visita.

E porque a vida é feita de projetos, chegou a hora de nos encaminhar-mos para um outro. Quem tenha interesse, este atrelado encontra-se agora para venda.

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