sexta-feira, 10 de junho de 2016

Participação da equipa (Escócia)

Representação a cargo de:
João Valério, Samuel Nabiça

Mais uma vez o nosso grupo de aventureiros (multi-equipas) se voltou a reunir para mais uma travessia épica e inesquecível. Depois de nos anos anteriores este grupo ter realizado, entre uma e outra ausência dos agora presentes, o Caminho Português de Santiago, o Caminho de Fátima, o Caminho Francês, a Rota Vicentina e a Grande Rota do Vale do Côa, desta feita o coeso grupo foi composto por representantes da Zona 55, eu (João Valério) e o Samuel Nabiça, o meu irmão Renato Valério e o Manuel Maia (A.C. BTT Fôjo) e também o estreante neste grupo, Vítor Campos (Templários BTT). A nível de experiência, do próprio grupo em si e a nível individual, este conjunto de aventureiros reuniram milhares de quilómetros de experiência btt de longas distâncias.

Por coincidência, as bicicletas por nós usadas foram todas elas da marca Cannondale, bicicletas que efetivamente são nossas e aquelas que usamos habitualmente em competições e treinos pessoais. Enquanto o Vítor levou a sua Scalpel de roda 26”, os restantes usaram as suas comuns F29. Aparte opiniões, a realidade é que este grupo de utilizadores e fãs de Cannondale, reforçaram a sua confiança nesta marca, que ultrapassaram com êxito todas as adversidades às quais foram colocadas à prova.

Ao certo não sei quando ou como pensei em fazer uma travessia na Escócia em btt, mas logo que o pensei fazer comentei com o restrito grupo de amigos que me costumam acompanhar nestas andanças, aos quais agradou a ideia que assim foi tomando forma. Fruto da experiência na forma como devem ser compostos os grupos deste tipo de aventuras, pretendia-se que o grupo fosse pequeno e de que os elementos que o compusessem fossem unidos (em todas as situações), desenrascados, motivados e experientes.

Dos 7 elementos do grupo inicial apenas 5 se mantiveram até ao dia “D” ao longo dos 20 meses em que fomos preparando a logística, dando tempo para cada qual amealhar o dinheiro necessário e irem-se fazendo algumas reuniões pelo meio.

Após muitas horas gastas na internet a pesquisar percursos e a reunir a melhor informação necessária, com um ano de antecedência já tínhamos um planeamento do que queríamos fazer e da quantidade de dias para o executar. A maior parte do meu planeamento teve por base a aventura de um ucraniano – Denis Nedilyuk, que conheci através da internet e que realizou uma façanha idêntica, mas “a solo”, em Setembro de 2014 (ver vídeo) e que gentilmente me cedeu todos os seus dados para nos ajudar a organizar a nossa própria travessia.

Para poupar nos preços das viagens, comprámos os bilhetes de avião (com bagagem extra incluída para transporte das bikes) com quase um ano de antecedência. Com o dia da partida agendado para 2 de Junho de 2016, a viagem de regresso mais económica seria o dia 12 de Junho, ficando nós assim com um total de 10 dias para realizarmos o percurso do Denis, porém, como o dele foi de “apenas” pouco mais de 300km, ligando Aberdeen a Fort William – o que demoraríamos no máximo dos máximos 4 dias a fazer, e porque não faria sentido esta viagem para pedalar e dinheiro gasto em viagens para tão poucos dias de curtição, havia que aproveitar ao máximo a estadia e, para tal, pesquisei mais percursos para aumentar a extensão total a realizar.
Passadas mais algumas semanas de volta do computador e internet, finalmente tinha o planeamento feito. O percurso ficou assim com cerca de 570km de extensão e seria realizado em 7 dos 10 dias que permaneceríamos na Escócia, sendo que os restantes 3 dias seriam para descanso, passeio e deslocações necessárias aquando o dia da nossa chegada e dia de regresso.

Com o percurso totalmente planeado e socorrendo-me do site da booking, com 6 meses de antecedência comecei a reservar alojamentos, dividindo as etapas em distâncias mais ou menos iguais de acordo com a disponibilidade de alojamentos existentes, extensões e altimetrias diárias – o que se revelou um erro, pois os pisos e dificuldades diversas nem sempre são tão lineares quanto aparentam ser. De qualquer forma, aventura é aventura e havia que se traçar um plano.

 
A data marcada foi-se aproximando e cada qual colocou em prática um treino à sua medida. Por unanimidade a opção de como transportar os haveres recaiu sobre o uso de mochilas, que variaram entre os 30 e os 40 litros de capacidade, cujo peso total (cheias) viriam a oscilar entre os 6,5kg e os 8,5 kg (ver opinião relativa aos modelos utilizados no final desta reportagem). Fizemos listas de material a levar, de uso individual e de uso comum, reduzindo tudo ao mínimo possível e indispensável, desde o vestuário e equipamento suplente de cada um (listas individuais), aos artigos de farmácia, material e peças suplentes, kits de chaves, bombas de ar e de pressão, os quais seriam divididos pelas mochilas de todos (lista comum).

Para o envio das bicicletas por avião, à exceção do Renato, que utilizou uma caixa de papelão própria, todos os restantes elementos do grupo optaram por utilizar sacos de transporte próprios para bicicletas: YTWO Easy Travel, Chain Reaction’s Bike Bag, Scicon Aerocomfort 2.0 TSA, Evoc Bike Travel Bag Pro, respetivamente utilizados pelo Vítor, Samuel, João e Manuel (ver opiniões relativas no final desta reportagem).

 
Às 10h00 do dia 2 de Junho tomámos o avião da EasyJet, que fez o voo direto entre as capitais de Portugal e Escócia (Lisboa/Edimburgo), e no porão seguiram também as nossas bicicletas. Após cerca de 2h30 de viagem aterrámos e, de imediato, fomos recolher os sacos na “porta” de bagagens especiais. Anexo ao aeroporto, no parque de veículos de uma das empresas de car rental, levantámos a carrinha de 9 lugares por nós previamente reservada, tendo-nos sido disponibilizada uma Mercedes Vito de caixa automática.

 
 
Foi com alguma dificuldade que conseguimos carregar todas as bicicletas, ainda ensacadas, na Mercedes, mas finalmente conseguimos. Valendo-nos das app’s previamente instaladas nos nossos smartphone’s, realizámos a curta viagem de 5.600m entre o aeroporto de Edimburgo e a Featherhall Avenue (nos arredores da capital Escocesa), onde se localizavam os 2 apartamentos previamente reservados para as nossas últimas duas noites na Escócia, a utilizar após a travessia, e cuja proprietária gentilmente aceitou o nosso pedido para, gratuitamente, guardarmos os sacos e caixa usados para transporte das bicicletas na viagem de avião até terminarmos a nossa aventura.


Usufruindo do amplo e reservado espaço existente no Featherhall Garden Court Apartments, desensacámos as bicicletas e montámo-las (iam parcialmente desmontadas), voltando a carregá-las na Mercedes Vito para realizar nova viagem, desta vez de cerca de 200km até Aberdeen, onde iríamos pernoitar. Alvo do atraso do voo, na montagem das bicicletas e do tempo gasto nas ligações rodoviárias, principalmente devido ao trânsito lento derivado às obras em curso na saída de Edimburgo, chegámos ao destino já passavam das 20h00. Pelo meio aproveitámos uma área de serviço para fazer um almoço alancharado.


 
O Samuel foi o voluntário para conduzir a Mercedes alugada, consciente e receoso da dificuldade em manter-se na faixa esquerda da estrada - porque ali conduz-se em contramão, se comparados com o nosso país e resto da Europa. Mas apesar de alguns sustos, felizmente não tivemos nenhum acidente e a viagem decorreu sem sobressaltos (mas depois tivemos um surpresa - ver nota final), após um início um tanto ou quanto complicado até nos adaptarmos, com a ajuda preciosa de todos os elementos do grupo.


 
Chegados à Belmont Street, uma rua centenária onde se localizava o nosso alojamento (Belmont Street Apartment) - um apartamento com 2 quartos no 7.º andar de um antigo edifício situado defronte ao original pub de Slains Castle, inspirado no filme de Bram Stocker’s Dracula, que funciona numa antiga igreja de estilo gótico mesmo no coração de Aberdeen - enquanto após a descarga de bicicletas e sacos, 3 dos elementos do grupo carregaram as trouxas, o Vítor e o Samuel fizeram a viagem em contra-relógio até ao aeroporto local para conseguirem fazer a entrega da Mercedes Vito antes das 22h00, transportando consigo as respetivas bikes, as quais utilizaram para regressar depois de novo à cidade até junto de nós, realizando os 10km de distância por asfalto.


Depois de carregarmos as biclas para o 7.º andar e organizarmos minimamente as mochilas para o dia seguinte, saímos para jantar e conhecer um pouco de Aberdeen à noite, que a bem dizer não o chegou a ser, pois tomámos consciência de que nesta altura do ano anoitece pelas 23h00 e pelas 04h00 começa novamente a ser dia, sendo que nesse período de tempo de 5h nunca chega a ser realmente noite escura, mas sim um género lusco-fusco que nos permite andar na rua sem ter-mos de recorrer a quaisquer tipos de iluminação. Logo aqui ficou demonstrado que o kit de luzes que levei não mais seria que um peso extra por falta de uso.

Aproveitando a saída noturna para passear e conhecer um pouco da cidade, após voltas e voltas "acampámos" num pub quase defronte ao apartamento onde estávamos alojados, cujo porteiro após a nossa visível atrapalhação nos surpreendeu com um: "- Podem entrar e beber o que quiserem!" - Após sermos denunciados pelas inscrições e referências em português às nossas equipas nas roupas que vestíamos mas também pela linguagem utilizada entre nós, cumprindo-se os rumores de que onde quer que se vá encontra-se sempre um português! Lá tivemos de entrar e experimentar a famosa cerveja preta Guiness, mas não ficámos fãs, pelo menos logo nesta primeira noite!


Após uma noite bem dormida, a nossa travessia começou assim oficialmente em Aberdeen, que é uma milenar e importante cidade portuária e industrial, localizada no nordeste da Escócia, conhecida como a capital europeia do petróleo, por ali existirem plataformas petrolíferas no Mar do Norte. Tem 216.000 habitantes e os seus edifícios são maioritariamente construídos em granito.



PREFÁCIO:
A Escócia possui uma excelente e invejável rede de ciclovias, caminhos e trilhos, passíveis de serem realizados em bicicleta de montanha, alvo da cultura e respeito que este povo nutre pela natureza. O nosso grupo percorreu alguns desses míticos caminhos, uns parcialmente e outros na totalidade, “colando” uns com outros, e o resultado foram duas e não uma Scotland Coast to Coast, pois atravessámos a Escócia de Este para Oeste (Aberdeen/Fort Augustus) e depois de Oeste para Este (Banavie/Edinburgh).

Nota: Os valores totais das altimetrias e distâncias apresentadas abaixo, são os reais, onde estão já contabilizados os enganos e extensões feitas além do esperado, sendo que os tracks publicados são os finais, já devidamente corrigidos.


 ETAPA 1 - 03 de Junho de 2016

ABERDEEN/BALLATER (74,79km com 761m D+)

O despertador tocou às 07h00, hora de levantar que seria comum ao longo de todas as etapas. O céu apresentava-se escuro e caiam uns chuviscos. Já com o pequeno-almoço tomado e todas as tralhas dentro das mochilas, um a um fomos descendo até ao rés-do-chão. Após uma última revista ao apartamento, nada parecia ter sido esquecido e fui o quinto e último elemento a juntar-me ao grupo que já me aguardava impacientemente.

Preparados para o pior dos cenários, todos trajávamos equipamento contra a chuva, que já começava a dar jeito. A temperatura rondava os 10ºC resultado da brisa marítima provocada pelo Mar do Norte. Para iniciar a aventura saímos do apartamento e pedalámos até junto do mar, sempre com o extremo cuidado de nos mantermos a circular à esquerda da faixa de rodagem (em contramão ao sentido de trânsito em Portugal), seguindo assim cerca de 1500m pelas bem asfaltadas ruas da cidade até estancarmos no passeio marginal defronte ao Mar do Norte. Aqui seria definitivamente a nossa partida oficial para a primeira etapa, tal como eu tinha previsto e desenhado no track por todos carregado, à exceção do Samuel Nabiça que optou por não levar o seu GPS.

Depois das fotos da ordem, iniciámos oficialmente a nossa jornada de btt na Escócia. O percurso definido iria levar-nos a percorrer na totalidade o The Deeside Way, percurso que se estende desde o centro urbano de Aberdeen até Ballater, localidade onde iríamos pernoitar. Este caminho está totalmente marcado e localiza-se todo ele junto ao rio Dee, que nasce nas terras altas da Escócia (the Highlands) e cuja foz é precisamente em Aberdeen.

Imediatamente à saída do perímetro urbano da cidade, o gps salvou-nos do trânsito e orientou-nos para uma pequena e algo inclinada descida à esquerda, por um single track de terra batida com cerca de 150 metros de extensão que termina num trilho asfaltado com cerca de 2 metros de largura, muito bem cuidado e evidentemente alvo de manutenção constante. Seguimos para a direita afastando-nos da cidade a bom ritmo. O cruzamento com pessoas na sua corrida ou caminhada matinal foi frequente ao longo de quase toda a manhã, sendo que a grande parte delas se faziam acompanhar de cães, por sinal muito educados e que paravam à nossa aproximação sem soltar um único latido.

The Deeside Way não apresenta qualquer dificuldade, seja física ou técnica e está aberto à circulação de pessoas, bicicletas e cavaleiros. É praticamente todo em patamar, apesar da subida pouco notada no sentido que seguimos. O piso é diverso, sendo possível encontrar asfalto, gravilha e terra batida, além de passagens sobre bonitas e bem conservadas pontes de madeira ao longo de bosques, florestas e campos de beleza ímpar. Por vezes deparamos-mos com cancelas, as quais temos de abrir e tornar a fechar.

Aqui o cumprimento normal no cruzamento com outras pessoas era, maioritariamente, por estas paragens um original "cheers" ou o vulgar "hi" (pronuncia-se hái), mas dias depois e já nas terras altas, começámos também a ouvir e empregar um "hi-a" (diz-se háia).

A facilidade na progressão e o ritmo elevado faziam-nos imaginar (erradamente) que os dias seguintes seriam igualmente fáceis. A escolha de carregarmos os haveres em mochilas ao invés de alforges ou trailers, no momento parecia inadequada. O piso apresentava-se seco e mesmo com a queda da chuva a água rapidamente escoava deixando o caminho limpo e desimpedido.

À medida que nos íamos afastando do mar e o dia avançando, a temperatura foi subindo um pouco e os chuviscos foram sendo definitivamente substituídos por um bonito dia de sol. As paisagens que se encontram por aqui são de facto lindíssimas. Casas típicas de telhados escuros e inclinados, com jardins em redor e, lá ao fundo, avistamos montanhas com neve a cobrir-lhes os cumes.

Ao longo do percurso, entre Aberdeen e Banchory, tivemos a oportunidade de ver algumas relíquias sobre as antigas linhas férreas da Old Royal Deeside Railway, desde antigas locomotivas e até um buggy, a escassos metros do caminho que fazíamos. Com alguma regularidade também se encontravam bancos de madeira com estrutura em ferro, bem conservados e estrategicamente localizados para descanso dos utilizadores deste caminho.

Ao longo da etapa optámos por não fazer paragens longas para almoço, não parando em restaurantes nem similares. Ao final de cada dia/etapa procuraríamos um supermercado para comprar pão e o que lhe pôr dentro, água e fruta, que depois preparávamos e levávamos connosco nas mochilas, fazendo pequenas paragens de vez em quando para nos reabastecermos.

 
A passagem mais marcante terá ocorrido sensivelmente entre o km32/42, quando o percurso nos levou ao interior de uma frondosa floresta, com imponentes árvores e verdes de dezenas de tonalidades, cujo trilho em terra batida parecia colar-nos ao chão por se encontrarem ensopados ou repletos de musgo e ervas daninhas, devida à humidade ali existente. Foi também nesta fase que sofremos a maior chuvada de toda a aventura, porém não mais durou que breves minutos.

 
Relativamente ao tipo de sacos usados para transporte de bens e material, além das mochilas, alguns de nós usaram métodos adicionais, como foi o meu caso, em que usei uma bolsa Berg Outdoor Waist Basic Bag que adaptei no guiador, ao passo que o Samuel e o Manuel utilizaram um “ovo” Topeak DynaPack. No caso do Manuel e no decorrer de testes pré-travessia, já tinha partido o apoio do Topeak, mas mesmo assim decidiu levá-lo já com um novo suporte adquirido, o que se revelou ser má ideia, pois este frágil equipamento não mais durou que escassas horas preso ao espigão de selim da Cannondale do Manel, acabando o suporte por partir após alguma oscilação verificada numa zona de descida em que a vibração nem era assim tanta, num percurso nada duro. Já o modelo igual usado pelo Samuel, persistiu e aguentou a etapa até final. Tivemos de nos adaptar e redistribuir a carga que estava no Topeak do Manuel pelos restantes elementos até final da etapa.
Relativamente a água, abastecíamos sempre que encontrássemos água potável, o que não foi difícil de encontrar nesta etapa.

 
As localidades maiores que cruzámos foram Banchory e Aboyne, dotadas de lojas/oficinas de bicicletas se fosse caso disso, porém o track passa nos limites urbanos sem dificuldades de maior, bastando-nos seguir as soberbas indicações, lançando o olho ao gps de quando em vez só para confirmar a direção.

 
 
À medida que nos aproximávamos de Ballater encontrámos algumas bonitas pontes, estreitas e compridas, em ferro e pintadas de branco - género ponte 25 de Abril mas em tamanho pequeno - mas cujo atravessamento estava proibido devido a danos estruturais nos tabuleiros, resultado das inundações ocorridas Fevereiro, segundo a população a maior dos últimos 50 anos, devido ao derreter do gelo e neve da cadeia montanhosa de Cairngorms, fazendo o leito do River Dee sair das suas margens e alagar terrenos e populações próximas levando depois detritos e até coisas maiores como caravanas que por ali se veem em grande quantidade, rio abaixo, que vieram depois a danificar as pontes.


Chegámos à pequena localidade de Ballater ainda antes das 16h00 e de imediato fomos fazer o check-in no The Deeside Inn, um hotel de 4 estrelas que foi a nossa maior extravagância a nível de preços, cujo montante total rondou os 360€ e que, afinal, não o teria sido se tivesse tido o bom senso de antes de fazer a reserva no booking contatasse diretamente o hotel a sondar a capacidade dos quartos. Ocupámos assim um total de 3 quartos: 2 twin com 4 camas individuais e 1 quarto de casal com 1 cama de casal + 2 camas twin + 1 sofá-cama, sendo que este último teria sido suficiente… mas enfim, após falado com a gerência, foi uma espécie de bónus apesar de não estar previsto, não podendo ser anulado. Depois de um bom banho estávamos como novos e prontos para a paródia.

 
Defronte ao hotel, do outro lado da estrada, uma loja e oficina de bicicletas, que felizmente não precisámos. Antes de jantar fomos até ao supermercado local e comprámos os bens necessários com vista ao almoço do dia seguinte. O Manuel aproveitou a existência de uma estação de correios e enviou de regresso para Portugal o Topeak danificado e mais algum material que antes seguia no interior e que no momento parecia vir a ser desnecessário, que só viria a chegar a Portugal 2 semanas depois.

 
 
Às 20h00, depois de um passeio pela pequena mas bonita localidade de casas de pedra, regressámos ao hotel para jantar. Apesar do variado e algo extenso menu, optámos por apenas 2 pratos diferentes: bife e strogonoff de cogumelos servidos em pratos gigantescos mas só com uma "amostra" ao centro, género gourmet que é mais para provar do que para alimentar, empurrados por algumas imperiais nos regulares copos de meio litro utilizados por terras de Sua Majestade. A conta foi mais um soco no estômago, conforme o foi a da estadia, em que pagou cada qual mais de 20€ pelo jantar. Decidimos que teríamos de adotar outras medidas nos dias seguintes, o que viríamos a fazer. Salvou-se o dia com o cálice de uísque de malte, de produção local, da marca Glenfiddich com que nos presenteou a menina da receção.


ETAPA 2 - 04 de Junho de 2016

BALLATER/AVIEMORE (80,90km com 1.204m D+)
Percorrendo as Highlands (terras altas) e o Parque Natural de Cairngorm – Parte I (track stage 2)


 
 
Depois do pequeno-almoço tomado no hotel, à grande e à escocesa incluído na dormida, que incluiu café de cafeteira, ovos, mel, marmelada, papas de aveia, sumos, iogurte e cereais, às 8h30 já estávamos de novo a pedalar sob um dia de sol fabuloso. Os primeiros 25km foram percorridos rapidamente em asfaltadas rodovias, mantendo-se as facilidades vividas no dia anterior, mas permitindo-nos desfrutar de paisagens bastante bonitas e de cruzar localidades compostas de casas típicas.

 
 
 
 
Ao km13,5 fomos obrigados a fazer a primeira alteração in loco ao percurso definido, quando ao chegarmos à localidade de Crathie nos vimos perante os enormes portões de uma propriedade privada com ligações à família real britânica, no interior da qual existe um castelo quinhentista e algumas sepulturas de membros reais, mas que pela sua ilustre fama tem passagem e visitas abertas ao público pela módica quantia de £11,50/pax, no entanto eram apenas 9h15 e o horário de abertura mencionava as 10h00. Após ponderar-se a decisão e marcar uma escapatória de cerca de 9km pela Old Deeside Road, optámos por seguir em asfalto ao invés da gravilha que iríamos encontrar, segundo um operador turístico que ali se encontrava, poupando assim algumas libras e tempo de espera.

 
 
À semelhança da etapa anterior, o Rio Dee continuou a fazer-nos companhia até ao km41, tendo o abandono do asfalto só ocorrido ao km23, quando definitivamente entrámos nos limites geográficos da cadeia montanhosa e floresta de Cairngorm - a maior floresta natural da Grã-Bretanha, parte integrante das famosas terras altas da Escócia, tantas vezes retratadas em filmes. Diria mesmo que foi aqui, próximo da cidade de Braemar, onde terá verdadeiramente começado a aventura offroad.

 
 
Após sairmos do alcatrão o percurso levou-nos para o interior de uma floresta muito bonita e com bastante movimento de turistas em deslocação para aproveitar o solarengo fim de semana. Um pouco adiante, junto de um estreito ribeiro que tivemos de atravessar, encontrámos um grupo de jovens caminhantes que, tal como nós, procuravam a melhor forma de atravessar a água para depois, já do outro lado, abrir a enorme cancela e seguir caminho. Pela beleza do local e paisagem envolvente, decidimos parar logo ali para fazer o primeiro abastecimento do dia, que não durou mais de 15 minutos.

 
Num repente e após pedalarmos por diverso tempo sem ver vivalma, deparámos-mos junto das margens de uma outra ribeira, que apesar da pouca corrente e profundidade de apenas alguns centímetros, tinha uns 10 metros de largura e a ponte que antes proporcionava a sua travessia sem molhar os pés, estava agora bastante destruída e inutilizável, o que nos obrigava a fazer o atravessamento a pé, como foi o caso do Manuel que até se descalçou para não molhar as meias ou os sapatos, ou montados a pedalar, que foi o que fizeram os restantes elementos do grupo.

Já na outra margem, pousei a minha GoPro e o respetivo extensível no chão. Uns metros à frente e junto de um largo portão de rede, encontrámos repentinamente bastante movimento de pessoas, bicicletas, jipes e carros, os quais se dirigiam em passeio para a área que acabáramos de cruzar. Uns meros quilómetros adiante dei pela falta da GoPro, voltando atrás e num golpe de sorte recuperei-a de volta no local onde a havia abandonado.

 
O percurso estava a tornar-se cada vez mais interessante, tanto pelo piso como pelas fantásticas paisagens, sempre, sempre a subir, inicialmente com pouca inclinação. Com regularidade fomos-mos cruzando com grupos de jovens caminhantes de mochila às costas, ou a divertirem-se nas margens do Rio Dee.

 
 
Um pouco mais à frente optámos por fazer uma paragem para abastecimento sólido, junto do rio Derry Burn, onde optámos por atestar diretamente os nossos bidões nas límpidas e frescas águas. A paisagem espetacular levou-nos a descansar um pouco mais que o exigido para contemplarmos todo o ambiente e natureza que nos rodeava. Ali ao lado um grupo havia largado mais de uma dezena de bicicletas de montanha de média gama, espalhadas pelo chão e encostadas aqui e ali, sem receio de poderem vir a ser roubadas, talvez o enorme grupo de jovens que havíamos cruzado escassos quilómetros atrás.

 
De novo de volta ao caminho, que depressa se transformou em single track, serpenteando numa pequena encosta, com simultâneos sobe e desces e valas largas por onde correm pequenos riachos vindos da montanha, com algumas árvores aqui e acolá.

 
 
 
 
A pouco e pouco vimos-mos no interior de um vale gigantesco, rodeado por montanhas e onde as árvores desapareceram de vez do nosso horizonte, tendo unicamente como companhia o recentemente conhecido Derry Burn River, o qual viria a servir-nos por diversas vezes de abastecedor de água. O single track a perder de vista ao longo do vale cada vez ia-se apresentando mais e mais empredado, obrigando-nos de vez em quando a apearmos para prosseguir, o que começou a ser cada vez mais frequente acontecer, até que definitivamente a situação se inverteu, passando nós a caminhar mais e a pedalar menos, até ao ponto de já não dar mais para pedalar, nem pouco nem muito, só andando com a bicla às costas.

 
 
 
Num determinado momento começámos a cruzar-nos com outros bikers (menos) e caminhantes (mais), os quais nos iam informando que as dificuldades seriam muitas nas próximas 3 horas, onde pouco iríamos conseguir progredir devido à muita pedra existente nos trilhos, o que nos deixou cabisbaixos e dececionados, mas enfim, seria um obstáculo que teríamos de ultrapassar.

 
 
 
 
Entretanto o grupo separou-se em 2, ficando eu com o Samuel para trás devido a uma avaria na bicla dele e, depois, por eu haver perdido o extensível da GoPro, o que me fez regressar atrás e correr uns bons 2km ao bom estilo do trail, sem no entanto haver conseguido recuperar o stick. Com isto tudo perdemos uns bons 45 minutos, a juntar às diversas horas que já havíamos perdido por não podermos rolar devido aos enormes pedregulhos brancos que compunham o caminho.

 
 
 
Cerca de 1 hora mais tarde voltámos a unir-nos aos restantes 3 elementos, que se encontravam na margem norte do Derry Burn, a uns bons 15 metros de distância, com águas algo revoltas e entre 20cm a 40cm de profundidade, porém com diversos pedregulhos a permitirem uma passagem algo segura para o outro lado onde havia um pequeno acampamento de hikers (caminhantes). A partir dali o percurso voltou a melhor, pouco a pouco até permitir um pedalar mais constante. A intensa caminhada havia provocado uma ferida num dos tornozelos do Samuel.

 
 
 
 
Olhando em redor, a visão das montanhas cobertas de neve nos topos era avassaladora. O céu limpo e solarengo, com uma ligeira brisa a beijar-nos as faces e membros desnudos, ia-nos bronzeando irremediavelmente. A saída do interior do vale já se via a curta distância. O caminho seguia montanha acima com uma inclinação considerável, quebrada por regueiras em pedra que impunham sair do trilho para as contornar.


Demorámos diversas horas para percorrer estes últimos 15km de trilhos em pedra não cicláveis. A seguir vinha o teste final com uma subida até aos 740m de altitude. Em sentido contrário desciam 2 bikers com as suas fat bikes, que nestes trilhos deverão ter dado um jeitão aos seus pilotos.


 
Após diversos minutos a pedalar até ao cume, mas felizes por finalmente voltarmos a poder montar as burras, lá atingimos o topo, um enorme planalto repleto de erva baixa enrolada em pequenos montes pela força do vento e da neve há pouco derretida. As regueiras continuavam a aparecer a cada 50 metros, o que se prolongou mesmo após o início da longa descida de 6km, bastante rápida e técnica, obrigando-nos a puxar as bikes em impulsos rápidos e precisos por forma a ultrapassar os largos (20cm a 40cm) regos em feitos de pedra de xisto com cuidado por forma a evitar “aterrar” o pneu traseiro sobre elas.

Rapidamente abandonámos as montanhas e chegámos a Glenmore começando-nos a cruzar com diversos grupos de caminhantes e bttistas. A partir dali entrámos no Old Logging Way, um estradão de terra rija e escura serpenteando no interior da Glenmore Forest, continuando sempre a descer em bom ritmo e ao despique até Aviemore, após a passagem junto do Lock Morlich em que seguimos junto do River Druie até este desaguar no River Spey, percorrendo uma ciclovia bem interessante localizada paralelamente à estrada rodoviária.

 
 
Finalmente chegámos ao Scandinavian Village, ainda dia e uns meros minutos antes da receção encerrar, o que nos permitiu ter acesso ao espaço destinado a guardar as bicicletas, à lavandaria que assim conseguimos prolongar o horário e de nos deslocarmos ao supermercado ali próximo para comprarmos os ingredientes para o nosso jantar e abastecimentos da etapa seguinte, beneficiando das excelentes condições proporcionadas pelo fabuloso apartamento que havíamos reservado pela módica quantia de 90€/noite, com cozinha kitchenette totalmente equipada, dois quartos e duas casas de banho e uma sala de apoio enorme dotada de televisão.

 
Após a roupa lavada, seca e arrumada, fizemos um jantar digno de reis, composto de carne de frango e legumes, vinho e cerveja, terminando com gelado. Ficámos com uma barrigada daquelas. E depois de alguns dedos de conversa já estávamos todos na cama, continuando a conversar até que por fim todos se calaram e adormeceram embalados pelo cansaço desta dura e inesquecível etapa.


ETAPA 3 - 05 de Junho de 2016

AVIEMORE/FORT AUGUSTUS (85,660km com 1.228m D+)
Percorrendo as Highlands (terras altas) e o Parque Natural de Cairngorm – Parte II (track stage 3)

 
O pequeno-almoço foi composto de torradas com doce e/ou manteiga, leite ou sumo, Nescafé, iogurte e fruta, que tínhamos comprado no dia anterior, excepto eu que tive de emborcar uma cerveja que havia sobrado do dia anterior (que chatice!). Novamente com um fenomenal dia de sol, pusemo-nos ao caminho pouco depois da 8h00.

Após escassas centenas de metros de asfalto, rapidamente entrámos numa ciclovia asfaltada que atravessa um bosque à saída de Aviemore, evitando assim o tráfego rodoviário, para logo de seguida tomarmos uma estrada rodoviária com pouco trânsito, inicialmente ao longo do River Spey (primeiros 8km), rio que iríamos acompanhar até ao km62, sempre pelo meio de florestas e campos de pasto, onde voltámos a ter a oportunidade de ver exemplares da famosa raça bovina apelidada de gado escocês das montanhas ou highland cattle, de pelagem longa e franja, que eu apelidei de estilo Justin Bieber, raça esta que só se encontra nesta zona do planeta.

 
 
 
 

Na pequena povoação de Feshiebridge, após passarmos uma ponte sobre o agitado River Feshie, um afluente do River Spey, foi ao km12 que começámos finalmente a pedalar em terra batida, tendo logo ao início do trilho de abrir e fechar uma cancela, o que já se tornava habitual, que avisava estarmos a entrar em propriedade privada. As passagens neste tipo de propriedades são por norma autorizadas, desde que respeitados os avisos e informações colocadas sob a forma de placas.

 
 
 

 
 
O piso seco da larga estrada de terra batida e sem grandes inclinações, permitiu-nos impor um bom ritmo e ao km23,5 vimos-mos de novo em pavimento asfaltado numa rodovia de ligação regional e com pouco trânsito, onde mantivemos o bom andamento. A escassos quilómetros de Kingussie não resistimos a dar uma visita de olhos às ruínas de Rutven Barracks, localizadas junto ao percurso.

 
 
 
 
Dali até Laggan o percurso levou-nos a percorrer alguns quilómetros em asfalto, primeiro numa ciclovia e depois na A80, uma algo movimentada via rodoviária, ao longo de pouco mais de 10km sempre rodeados de verdejantes campos e pedalando a bom ritmo. Nesta zona de passagem cruzámos-mos com um passeio de cicloturismo, onde vimos diversos tipos de bicicletas a participar, encontrando-se ao longo da estrada enormes placas em verde fluorescente (Caution Ciclists) a avisar os utilizadores daquela via para terem cuidado.

 
Um pouco adiante, escassas centenas de metros antes de abandonarmos aquela via principal, deparámo-nos com uma zona de abastecimento do evento de cicloturismo, onde alguns elementos do staff nos informaram tratar-se do The Bikeathon organizado pela instituição de Cheast Heart & Stroke Scotland, os quais gentilmente nos cederam algumas garrafas de água e bananas, ao que não fiquei indiferente tendo puxado de uma nota de £10 e feito um donativo. 


 
 
 
 
Abandonando a rodovia, seguimos por uma estreita estrada secundária ao longo de uma enorme barragem no River Spean, sempre sem dificuldades de progressão e pouco ou nenhum tráfego rodoviário, mas de cada vez que cruzávamos com viaturas, eram extremamente simpáticos e corteses, cumprimentando-nos e dando-nos bastante espaço de distância.

 
 
Finalmente reentrámos em terra batida de piso firme, num caminho de acesso a diversas propriedades agrícolas e de criação de gado, começando desde logo a subir, primeiro ligeiramente e depois cada vez maior inclinação em direção ao topo das montanhas, ao longo de 12km até atingirmos o km70.
À medida que subíamos íamos cruzando pequenos riachos e ribeiros que desciam das montanhas ali junto de nós. Agora com o sol bem mais quente e o esforço necessário para enfrentar a cada vez maior inclinação de subida, bem nos soube atestar os bidões de água fresquinha.

 
 
 
 
Foi por estas bandas que o Samuel teve um problema no pedaleiro, que alargou, tendo o Manuel dado uma ajuda conseguindo apertá-lo e devolvendo-nos ao trilho, por agora. Lá ao fundo e em cima, à esquerda, via-se onde nos levaria o caminho que seguíamos, como uma gigantesca serpente branca a desaparecer no topo das montanhas, onde era possível perceber duas figuras a chegar ao topo, talvez a uns bons 3km de distância.


 
 
 
 
 
 
Para o final desta impressionante subida, a estrada descrevia uns ziguezagues constantes, com o objetivo de permitir uma subida não tão inclinada, ainda assim bastante complicada de fazer e que eu, acabei por fazer muitas das zonas apeado por falta de tração e por falta de resistência física. Aqui o grupo acabou por partir-se, só nos voltando a reagrupar no topo da montanha onde se encontravam enormes cabos de alta tensão, onde a vista e paisagem são fenomenais.

 

 
 
 
  
 
Começámos então uma longa descida ao longo de quase 10km, com enorme inclinação por um piso misto numa mistura de terra com pedaços de pedras e rochas de xisto, bastante rijo e gravilhado, exigindo alguma atenção e ousadia, principalmente nas curvas para evitar romper um pneu, o que levou mais uma vez o grupo a dispersar-se, após nova paragem para mais umas fotos.

 
 
Logo após algumas centenas de metros, seguíamos mais ou menos próximos eu, o Manel e o Vítor, o que valeu a este último, pois o seu pneu da frente havia perdido alguma pressão e eu era o único de todo o grupo que tinha uma bomba de ar e o Manuel 2 botijas de CO2. Nova paragem e lá arrancámos para, cerca de 1km abaixo, já o Vítor havia deslocado para a frente, calhou-me a mim rasgar o pneu traseiro de tubeless. Um rasgo com cerca de 1cm fez sair todo o líquido anti-furo. Valeu a ajuda do Manuel Maia para colocar uma camera de ar nova e só tinha ali tamanho 26", a qual usámos sem grandes dificuldades no pneu 29", pois apesar de eu ter o único pneu tubeless 29" de todo o grupo queria poupá-lo para alguma situação mais complicada que viéssemos a ter. Fizemos um reforço sobre a camera de ar e entre esta e o pneu, com uma embalagem de gel vazia, para evitar que a camera saísse pelo rasgo e furasse facilmente, o que resultou e assim se manteve até final da travessia.

 O dia parecia estar a terminar com azares para todos e novamente chegou a vez do Vítor Campos, umas quantas centenas de metros e escassos minutos após o meu furo, quando já havíamos reagrupado. A cerca de 3km para o final da etapa, o pneu da Scalpel 26" estava de novo e agora rapidamente a perder pressão. Na tentativa de enchermos o pneu, partimos a única bomba de ar que tínhamos, mas dado estarmos já próximos do final, apesar de ainda estarmos nas montanhas e sem vivalma no meio do nada, não stressámos demasiado. A opção foi despejar uma embalagem inteira de espuma anti-furo, pois o pneu já estava totalmente vazio.

Finalmente chegámos próximos da população e o piso de terra foi substituído por asfalto, agora levando-nos por entre uma bonita floresta sob um bonito e solarengo sol de fim de tarde. Foi com o pneu praticamente vazio que entrámos em Fort Augustus, localizado nas margens do famoso Loch Ness, onde iríamos perrnoitar.

 A entrada para a propriedade onde se localiza o hostel Morag's Lodge é relvada e agradável, com um pequeno lago à esquerda onde uma jovem aproveitava para se bronzear com os últimos raios de sol do dia. O local situa-se a escassas centenas de metros do Lago Ness, onde este se liga ao Caledonian Canal e ao River Oich, os quais se situam lado a lado separados por onde é possível comprar um bilhete para um passeio de barco pelo famoso lago ou pelo extenso Canal. 


 
 
 Após o rápido check in, o grupo subdividiu-se para cumprir diversas tarefas. Desta vez, por um total de 141€ reservámos um quarto com 3 camas duplas de beliche com o nome de Robert The Bruce, tendo tido a sorte de não ter-mos de partilhar a 6.ª cama do quarto com ninguém fora do grupo. Enquanto um a um íamos tomando banho no único chuveiro e casa de banho do quarto, outros foram às compras ao supermercado mais próximo e outros fomos averiguar onde poderíamos comprar uma bomba de ar, que acabou por não acontecer por ser domingo e não haver lojas abertas.

Após o jantar confecionado pelo Manel, à base de esparguete, atum e outros condimentos que foram possíveis encontrar no supermercado local, fizemos uma caminhada até ao centro da localidade e, apesar de já ser tarde, continuava dia. Entrámos num dos poucos pub's abertos e provámos algumas imperiais, mas o atendimento e qualidade da cerveja e comida eram tão maus, que depressa voltámos ao hostel, onde prolongámos mais um pouco a noite no bar ali existente, que por sinal estava bem animado.


ETAPA 4 – 06 de Junho de 2016

FORT AUGUSTUS/BANAVIE (47,450km com 466m D+)
 

Nesta que foi a mais curta das etapas, começámos junto das margens do Lago Ness e pedalámos sempre ao longo do Caledonian Canal, um canal de água com 9,30m de profundidade, que é composto servido pelos Lagos Oich e Lochy, tendo nós realizado cerca de metade do trilho The Great Glen Way.

 
 
Foram quilómetros e quilómetros de pura diversão e descontração. Este percurso não apresentou qualquer dificuldade física, antes sim belíssimas paisagens sempre com água à vista numa espécie de gigantesca ciclovia ou pista de btt quase toda ela em patamar.

 
 
 
De vez em quando cruzámo-nos com outros ciclistas e caminhantes, os quais cumprimentávamos alegremente e vice-versa. Um pouco adiante tivemos de passar para a outra margem do Canal, não sem antes tirar umas fotos numa bonita ponte ali existente junto.

 
 
Lá mais para a frente, no interior de um bonito bosque, decidimos sair da impecável ciclovia e tomámos um caminho ao nível e junto ao Canal, que apresentava mais dificuldades e cujo piso era imperfeito, parecendo que não tinha manutenção há algum tempo. Por vezes deparámos-mos com árvores caídas a barrar a passagem, ou mesmo terra e pedras alvo de desmoronamentos, o que começou a ser tão vulgar que após pouco mais de 2km optámos por regressar à ciclovia, paralelamente situada a escassos 10 metros de distância e uns bons 5 metros de altura dali.

 
 

O caminho, apesar de ser quase sempre em patamar e junto do Canal, de monótono não tinha nada, era de facto bastante interessante e diverso. Por vezes passávamos por dentro de túneis ou sobre pequenas pontes e, lembro que está vedado ao trânsito de qualquer tipo de veículos a motor, sendo que com alguma frequência nos deparávamos com cancelas que após abrirmos para passar, impunha-se fossem de novo fechadas.

 
 
 
Por algumas vezes o caminho desaparecia e tínhamos de continuar pela rodovia, tal como estava previsto no track, o que nos permitiu apreciar algumas casas e aldeias típicas, sempre junto do Caledonian Canal, mas depressa regressávamos à terra batida, num ritmo descontraído e algo elevado à semelhança da primeira etapa. Ao longe e à nossa direita já podíamos avistar a imponente montanha Ben Nevis.


O percurso está quase todo ele inserido num largo vale, esmagado por cadeias montanhosas existentes em ambas as margens, sendo possível avistar neve no topo das mais altas. De novo tivemos tremenda sorte por ter-mos mais um radioso dia de sol, pelo que o cruzamento com outros aventureiros e turistas era regular.

 
 
 
 
Numa determinada altura o caminho irrompeu pelo interior de uma cerrada floresta de altíssimas árvores, com riachos aqui e ali, muito musgo e verdes intensos, onde encontrámos muitos outros ciclistas e caminhantes. A zona era tão bonita que convidava a parar um pouco para melhor apreciar tão fabulosa natureza.

 
 
 
Por vezes cruzámos-mos com pequenas embarcações que navegavam no interior do Canal, os quais nos acenavam à sua passagem. Rapidamente nos aproximámos do final desta etapa, em Banavie, mas não sem o azar voltar a bater à porta, desta vez ao Samuel Nabiça, que a escassas centenas de metros do fim rasgou o pneu dianteiro, tendo ele feito em corrida os metros finais, uma vez que não tínhamos bomba de ar, nem havia necessidade de gastar espuma anti-furo, pneu ou camara de ar com o final ali à vista.

 
 
 
O hostel por nós reservado, onde ficaríamos nas próximas 2 noites, pois o dia seguinte tínhamos previsto 1 dia de descanso, tem o pomposo nome de Chase The Wild Goose (persegue o ganso selvagem) e situa-se no interior de um bairro composto de vivendas, junto do Caledonian Canal onde este possui a famosa Neptune's Staircase, um elaborado sistema de elevação de embarcações composto por diversos diques artificiais. Mas infelizmente é uma localidade com escasso movimento.

Chegámos ao hostel pelas 14h00, mas como só poderíamos entrar às 17h00, guardámos as biclas e os sacos junto da entrada, para após desmontarmos as rodas do Samuel e do Vítor as levarmos em mãos e nos pôr-mos a caminho (a pé), meio equipados, uns de chinelos outros de ténis, até Fort William, a cidade ali próximo onde sabíamos existirem algumas lojas de bicicletas.

 
Após um pouco mais de 1 hora a andar, finalmente chegámos à loja/oficina Nevis Cycles, onde fomos de imediato atendidos com muita simpatia e profissionalismo. O Manel e o Samuel optaram por comprar pneus, o Manel comprou 2 botijas de CO2 e 1 bomba de ar, tendo eu comprado uma outra bomba, para o caso de voltarmos a partir uma novamente. Os preços até que foram bem em conta, comparados com os praticados em Portugal.

 
 
 
Fort William é também conhecido por se realizar aqui uma das provas da taça do mundo de downhill (Fort William World Cup), que em 2016 realizou-se dias 4 e 5 de Junho e onde estiveram presentes +22.000 pessoas a assistir, ou seja, se tivéssemos chegado apenas 24h antes, teríamos conseguido assistir a este grandioso espetáculo desportivo (ver vídeo da Red Bull).

 
 Antes de regressarmos ao hostel, prosseguimos para o centro da cidade na tentativa de encontrar um supermercado, tendo durante a caminhada encontrado uma loja de artigos de típicos e de decoração, que desde logo fixámos para visitar no dia seguinte. Mais à frente, encontrámos finalmente o supermercado onde aproveitámos para fazer um almoço alancharado e comprar o que fazer para o jantar. Após as compras estávamos tão carregados que tivemos de regressar de táxi, já que a distância era grande.

 
De volta ao hostel, finalmente pudemos entrar e desta vez ficámos numa camarata com 4 beliches duplos, onde tivemos a companhia de dois jovens americanos. A confeção do jantar foi motivo para socializar um pouco com outros indivíduos que ali pernoitavam. Ao chegar a noite (que na realidade são algumas horas de lusco-fusco) sofremos pela primeira vez o ataque dos tão famosos midges (mosquitos), muito pequenos mas bastante agressivos, rancorosamente apelidados de fuck'in bastards por um escocês que acabáramos de conhecer.

A rua fora invadida por milhões destes pequenos insetos, tantos que pareciam deturpar-nos a visão. Para sairmos à rua só mesmo em caso de necessidade, pois eramos de imediato picados por dezenas de mosquitos, enquanto a alguns de nós ia valendo os repelentes e pulseiras anti-picadas, a outros de nada valiam e os inchaços não tardaram a aparecer, ainda por cima o hostel não tinha redes mosquiteiras e com o calor que se fazia sentir lá dentro, ou se abriam as janelas ou se suava a bom suar.

 
 
O dia seguinte foi para dormirmos mais um pouco além do habitual, pois era o dia de descanso e depois dar uma volta pelos arredores e para experimentar o tradicional kilt, comprar alguns artigos de recordação e voltar a Fort William, mas desta vez fomos de bicicleta. Aproveitámos uma estação de lavagem automática junto de umas bombas de combustível para lavar as bicicletas, mas especialmente as transmissões. Regressámos ao hostel ao final da tarde, pois entre as 14h00 e as 17h00 não autorizavam a permanência no interior das instalações para se poderem fazer as limpezas. Pagámos por esta estadia de 2 dias um total de 260€.


ETAPA 5 - 06 de Junho de 2016

BANAVIE/CRIANLARICH (86,980km com 1.969m D+)

 
 
Após o dia de folga, voltámos a levantar às 07h00, desta vez quase todos um pouco inchados de tanta picada de mosquito. Após o pequeno-almoço e já na rua, tivemos de nos despachar a aperaltar as bikes e as mochilas, pois os mosquitos não davam tréguas e, foi com enorme satisfação que nos fizemos ao percurso para mais uma etapa que se presumia bastante dura.

 
 
 
 
O percurso inicial levou-nos ainda a percorrer alguns quilómetros do Great Glen Way, numa espécie de ciclovia com pisos diversos e junto do meio vazio Loch Eil, um lago diretamente ligado ao Atlântico Norte, que aparentemente será o motivo da existência de tantos mosquitos nesta zona. A minha bolsa adaptada, que tinha fixada no guiador, com tanta trepidação, acabou por não estar à altura do exigido, estando consecutivamente a soltar-se, obrigando-me a parar a cada 15 minutos. Tive de a retirar e passei a usá-la à cintura. Numa próxima aventura irei comprar uma bolsa de guiador em condições!

 
 
 
 
 
 
Imediatamente após a saída da cidade começámos a subir, e de que maneira. Os primeiros quilómetros foram em asfalto, por uma estrada estreita de acesso a propriedades privadas povoadas aqui e ali por casinhas, armazéns e ovelhas nos pastos. Fez-nos lembrar a subida dos Pirinéus pelo lado francês, quando realizámos o Caminho Francês, só que desta vez o objetivo era ultrapassar o Ben Nevis.

 
 
 
Finalmente estávamos a pedalar em terra batida por um caminho estreito que nos estava a levar acima das nuvens, mas o piso foi-se tornando cada vez mais rochoso e empedrado, dificultando a progressão e baixando-nos um pouco o ritmo. Era com facilidade que íamos cruzando com outros bikers e caminhantes, pois mais uma vez tivemos sorte e o sol brilhava com uma aragem fresquinha proveniente das montanhas que nos envolviam.

 
 
 
 
 

 
 
Com bastante regularidade o caminho era atravessado por pequenos regatos. Mal parávamos um pouco eramos de imediato visitados pelos pequenos diabretes (mosquitos). Ao km23 começámos finalmente a descer, e de que maneira! Bastante inclinação, caminho rochoso, muitas regueiras em xisto a cruzar o trilho, chão escorregadio, curvas apertadas, enfim, tivemos de empregar a melhor técnica que a pesada mochila às costas permitia e finalmente saímos de campo aberto para entrar numa floresta, tenda a descida só terminado em Kinlochleven, onde aproveitámos para ir a um supermercado abastecer-nos de líquidos e sólidos para o resto da etapa.

 
 
 
 
 
Subimos desde os 10 metros aos 550 metros de altitude em apenas 8km. Desde a saída de Kinlochleven o percurso sinuoso de terra e rocha branca acompanhou as enormes condutas de abastecimento de água captada nas montanhas até sensivelmente meio da subida, sempre rodeados de árvores, até que, em determinado momento começámos um verdadeiro ataque à montanha, tendo a terra sido definitivamente substituída por enormes rochas brancas, havendo áreas de centenas de metros em que simplesmente não era possível pedalar e até mesmo o simples caminhar era de extrema dificuldade física. Em sentido contrário encontrámos inúmeros grupos de caminhantes.

 
De novo o azar bateu-nos à porta, e de novo ao Samuel. Tal como já sucedera ao Manel logo na 1.ª etapa, também o Topeak do Samuel acabou por partir e lá tivemos de voltar a adaptar-nos redistribuindo a carga por todo o grupo.

 
 
 
 
 
Os quilómetros que se seguiram foram de sobe e desces constantes num piso variável e semelhante a vulcânico, com pedras, rochas, terra e gravilha. Sensivelmente a partir dos 65km começou a chover bastante. Para onde quer que olhássemos viam-se cascatas, pequenas quedas e regos de água e riachos,  formando pequenos ribeiros que correm para alimentar o River Coupall.

 
 
 
 
A faltarem menos de 10km para o final da etapa, rolávamos a bom ritmo apesar da imensa chuva que caía, primeiro em terra batida, depois num empedrado género calçada romana e finalmente em asfalto. Pensávamos que já havíamos ultrapassado todas as dificuldades possíveis porém, ao entrarmos num single track que irrompe pela floresta, demos por nós de novo a fazer sobe e desces seguidos, os habitualmente apelidados de rombe-pernas, mas bastante sinuosos e escorregadios para complicar e, depois da enorme tareia de pedra e rocha, estava a fazer mossa, física e mentalmente.

 
 
Finalmente avistámos uma aldeia. Era Crianlarich, onde iríamos pernoitar. Uma curta e vertiginosa descida em terra batida escorregadia terminava numa estrada asfaltada que nos levava a passar num túnel sob uma linha férrea. Uma centena de metros adiante cheguei finalmente ao Crianlarich Youth Hostel, onde já se encontrava o Vítor, o Renato e o Manel, que já tinham feito o check in de todo o grupo.

Mais uma vez os mosquitos eram em grande número e igualmente agressivos! Gentilmente o gerente do hostel arranjou-nos uma mangueira para podermos lavar as bicicletas e também nós mesmos, pois não nos autorizava entrar no alojamento de tão enlameados que estávamos. A imensa chuva parecia não afetar os inúmeros mosquitos que nos rodeavam e picavam por todo o corpo que tínhamos a descoberto, o que tornou a tarefa de nos passarmos por água e às nossas bicicletas um esforço hercúleo. Os pequenos mosquitos entravam-nos pelas narinas, para os ouvidos, metiam-se nos olhos, picavam aqui e ali, obrigando-nos a estar constantemente a pular e a saltar, dando palmadas por todo o corpo para afrouxar o ataque, mas nada parecia fazer efeito, pelo que foi com enorme agrado que nos vimos a salvo no interior do hostel, bem organizado e asseado, este dotado de redes mosquiteiras.

  
 
Aproveitámos a existência de uma enorme divisão apelidada de dry room (quarto de secagem) para secar os nossos sapatos e demais vestuários que lavámos nas máquinas de lavar ali existentes. O quarto reservado e que nos foi atribuído possuía 3 beliches de cama dupla e uma das camas ficou desocupada. O quarto era excelente mas pecava pela escassez de tomadas elétricas.

Dada a hora tardia a que chegámos, o único supermercado existente naquela pequena localidade já havia encerrado. O gerente deu-nos a hipótese de comer uns enlatados de borrego, mas só o Samuel foi convencido. Os restantes quatro saímos bem protegidos contra os insetos e fomos até ao restaurante de um hotel ali próximo, onde comemos quatro enormes pizas bem regadas com umas meias-litrosas da maravilhosa cerveja holandesa Grolsch. Quanto ao montante pago pela estadia, ficou-nos um total de 145€.


ETAPA 6 - 08 de Junho de 2016

CRIANLARICH/GLASGOW (101,680km com 1.053m D+)

Às 07h30 já estávamos a tomar o pequeno-almoço e quando o supermercado abriu às 08h00 fomos os primeiros clientes, para comprar alimentos e líquidos para o decorrer da etapa. Para regressar ao percurso tivemos de fazer 600 metros pelo mesmo trilho que nos havia levado a Crianlarich no dia anterior, de novo em sobe e desce, mas a frescura física e de novo surpreendidos por mais um lindíssimo dia de sol misturado com uma doce brisa montanhosa, rapidamente pedalávamos por trilhos novos.

 
 
 
 
O caminho estreito seguia pela encosta da montanha onde ovelhas e vacas pastavam sossegadamente. O piso inicial era ligeiramente técnico por causa de algumas pedras e seguia junto de uma linha férrea mas também ao longo do River Falloch, o qual ladeámos até à sua foz no Loch Lomond. Com alguma frequência tínhamos de apear para subir ou descer escadas, entrar em pontes ou mesmo passar ribeiras cheias de pedra e água.

 
 
 
 
A pouco e pouco o trilho foi-se tornando cada vez mais complicado de fazer montado na bicicleta. O West Highland Way é nesta zona um single track maioritariamente bastante rochoso que segue sempre junto às margens do enorme lago. Fui-me apercebendo que a logística que eu tinha preparado para esta etapa estava completamente desadequada. Quando fiz as minhas pesquisas relativamente ao percurso, não levei a sério algumas reportagens que havia lido na internet de outros bikers que já tinham passado por aqui, onde relatavam que era impossível fazer estes trilhos a pedalar, julgando eu que estavam a exagerar.

Eu deveria ter estudado um pouco melhor as etapas. O trilho impossível de fazer montado começou sensivelmente ao km15 do track em Ardleish, num dos topos do lago Lomond. Nas imediações desta zona existem alguns cais que são utilizados pelos ferry's que percorrem todo o lago transportando passageiros entre as diversas localidades ali existentes, na sua maioria turistas, apelidados de carreiras aquáticas, encontrando-se estas informações no site cruiselochlomond.co.uk/waterbus-ferries.


Percebemos que apesar desta zona por onde passa o trilho ser pouquíssimo povoada, existem alguns parques de campismo com bungalows que poderíamos ter escolhido para pernoitar, como por exemplo o Beinglas Farm Campsite, que passámos aos 11km desta etapa. Teria sido mais acertado, se soubesse antes o que nos esperava, e marcado para esta etapa logo na logística uma forma de evitar tão complicado piso, escolhendo um outro caminho ou fazendo a ligação de ferry ou comboio.

O trilho nesta ligação é de tal forma difícil de percorrer, que para o percorrer só mesmo a pé e, mesmo assim, não é para todos, pois é de tal forma exigente e técnico que não basta estar em boa forma física, também precisamos de uma boa dose de resistência psicológica para enfrentar tamanhas dificuldade. A proximidade com o lago ia-nos permitindo refrescar-nos de vez em quando. Estávamos mantidos entre o gigantesco lago existente à nossa direita e a enorme e íngreme colina à nossa esquerda, ao fundo do qual passa este percurso.

 
 
Muito raramente fomos encontrando zonas onde era possível pedalar e quando as havia, raramente a extensão era superior a 50 metros. Quedas tivemos diversas. A nível de paisagem estávamos no interior de uma enorme e espessa floresta densa vegetação com inúmeros riachos a cruzar-nos o caminho, cuja água é maravilhosa e fresca. Tivemos de nos ir ajudando uns aos outros a ultrapassar alguns obstáculos mais complicados, em que eramos obrigados a subir por entre enormes rochas, ultrapassar largas fendas e valas e troncos gigantes e raízes que cruzavam o piso, ou escadarias de madeira construídas quase a pique.

 
 
 A verdade é que se não tivéssemos percorrido esta zona, também não teria sido possível apreciar tamanha beleza que nos rodeava, nalguns locais com praias paradisíacas onde a água fresca ondulava semelhante ao mar e nos convidava a um mergulho, mas não nos podíamos dar a esse luxo, pois o relógio não parava e precisávamos chegar a Glasgow por volta das 19h00, onde um casal de portugueses estaria à nossa espera para nos levar a conhecer a cidade.

Ainda que sendo um percurso complicado, conseguimos cruzar-nos e conhecer outros malucos parecidos connosco, que igualmente faziam este percurso com bicicleta... às costas! De qualquer forma, foi com bastante regularidade que cruzámos com caminheiros, aos quais íamos perguntando como estava o trilho do lado de onde vinham, mas as respostas eram sempre desanimadoras. A determinado momento, numa zona mais dura, um caminhante incrédulo por percorrermos o trilho com bicicleta disse "- You're crazy boys!".

Se na 2.ª e 3.ª etapa já estávamos convencidos disso, definitivamente esta foi a etapa onde confirmámos que fizéramos a escolha acertada quando nos decidíramos a levar mochilas para transportar as nossas coisas. Se tivéssemos optado por atrelados ou alforges, nesta etapa teríamos tido extremas dificuldades de progressão, sendo sempre obrigatório ter 2 pessoas para carregar e assim poder ultrapassar tantos e duros obstáculos, durante tanto tempo.


 
Para percorrer a extensão de 5km do West Highland Way que antecede Inversnaid, a qual fizemos 95% apeados com as bicicletas nas mãos ou às costas, demorámos cerca de 2 horas. O azar calhou-me agora a mim, tendo partido a corrente mas que rapidamente resolvi com a colocação de um elo de engate. Eram horas de almoço e só havíamos percorrido 1/3 da etapa. Quando finalmente alcançámos a pequena povoação de Inversnaid pensávamos que terminaria ali o percurso sinuoso, mas na realidade e após informação ali recolhida, concluímos que muito provavelmente nos próximos 15km a 20km esperava-nos tarefa igual.

Aproveitámos o hotel ali existente onde fomos atestar os nossos bidões, comer e beber qualquer coisa leve, mas também pedir mais informações acerca do trilho dali para a frente, tendo nós concluído que precisávamos de uma escapatória. Como por asfalto não era viável, decidimos esperar 45 minutos pelo próximo ferry, mas para cumulo do nosso azar só fazia a ligação até Tarbet, que fica na outra margem (oeste) do lago Lomond. Não tínhamos muitas mais hipóteses e decidimos arriscar para evitar perdemos mais tempo.

 
 
 
Enquanto esperávamos pela embarcação metemos conversa com um ciclista local que também aguardava pela aquela ligação aquática, o qual nos deu algumas dicas importantes. Pagámos 8 libras cada um, cujo bilhete é adquirido a bordo, para viajar com as nossas bicicletas no ferry que transportava maioritariamente turistas. A viagem durou 30 minutos para realizar a ligação de apenas 5km de distância, o que nos permitiu para analisar nos gps's a ligação que teríamos agora de fazer para podermos depois voltar a apanhar o track uns quilómetros mais à frente.

 
 
Já no outro lado da margem e com o sol bem quente, como já era habitual no decorrer desta nossa estadia mas que segundo os escoceses não é nada normal estarem tantos dias seguidos com sol, pudemos voltar a pedalar. Fizemos 27km desde Tarbet até Balloch, que se localiza no outro extremo do lago Lomond, pedalando sempre em asfalto, ora pela A82 ora pela ciclovia a ela paralela designada por West Loch Lomond Cycle Path, com um ritmo alucinante e quase sempre acima dos 30km/h, com apenas uma paragem pelo meio. Chegando fizemos nova paragem para comer e beber qualquer coisa.

Precisámos realizar mais 14km, o que fizemos seguindo por uma estrada rodoviária com bastante trânsito, para poder entrar de novo no track que tínhamos gravado no gps, o que aconteceu em Drymen. Foi com enorme satisfação que voltámos de novo ao percurso por nós planeado, vendo-nos livres do perigoso trânsito. Entrámos então de novo no West Highland Way.

 
Esta extensão do percurso é uma espécie de ciclovia em terra batida. Voltámos a encontrar diversas cancelas, as quais tínhamos de abrir e voltar a fechar. O ritmo continuou elevado, mas a média horária baixou para os 20's. Em Em Milngavie termina (ou começa) oficialmente o West Highland Way, havendo informação relativa. Esta foi a maior localidade cidade que víamos desde há dias a esta parte. Faltavam apenas 13km para terminarmos a nossa etapa.

 
 
 
A partir daqui o percurso passou a ter a designação de John Muir’s Way, quase todo ele de fácil progressão e maioritariamente em terra batida, sempre bastante limpo de pedras e erva, o que revela regular manutenção. As únicas dificuldades foi numa determinada área em que apanhámos diversos sobe e desces e os quase noventa quilómetros percorridos ao longo das últimas 10 horas já faziam mossa.

 
 
À entrada de Glasgow aproveitámos uma estação de serviço para lavar as transmissões. O Samuel não quis lavar a sua bicicleta e estava meio amuado, no entanto não partilhava com o grupo o motivo da sua indignação. Foi no momento em que nos livrámos da movimentada e larga via rodoviária, entrando num gigantesco bosque, que o Samuel explodiu de raiva, parando e atirando com a bike pelo ar e lançando uns palavrões, o que deixou os restantes elementos do grupo apreensivos e incrédulos. O motivo de tanta loucura era o pedaleiro que estava novamente largo. O cansaço tirara-lhe o discernimento e a sensatez. Mais uma vez o grupo trabalhou em conjunto para o Samuel poder voltar a pedalar.

 
 
Desde que entrámos na maior cidade Escocesa e terceira maior do Reino Unido, o percurso foi tudo menos monótono, pois estávamos constantemente a mudar de paisagens e trilhos, rolando em terra, asfalto, tartan, empedrado, por ciclovias, estradas, escadas, em bosques, florestas, junto de rios ou no meio da agitação e trânsito. Eram já muito perto das 20h00 quando chegámos ao Euro Hostel, no centro de Glasgow entre a gigantesca estação ferroviária Glasgow Central Station e o River Clyde. Os previstos 87,400km resultaram afinal em 101,680km, devido às alterações que tivemos de fazer.

 
 
 
A entrada do Euro Hostel, que ocupa um prédio de 9 andares na íntegra, possui um grande balcão corrido num hall bastante largo e ao fundo, junto a um par de elevadores tem um bar. Parecia que estávamos a entrar num casino ou numa discoteca. Fiz o check in do grupo e foi o primeiro e único alojamento onde me pediram identificação. A existência de uma divisão no piso  térreo para guardar as bicicletas veio mesmo a calhar. Como sempre, colocámos o cabo de aço com cadeado para fechar todas as bicicletas por igual.



 
Os nossos dois quartos localizaram-se no terceiro e sétimo piso, tendo o Manel, eu e o Samuel ficado neste último, onde existe um lcd com pelo menos 1 metro de diâmetro em cujo quarto tem 2 beliches de 2 camas, chuveiro, casa de banho, lavatório, muito mobiliário para arrumação e vista para uma movimentada rua. Pagámos aqui um total de 120€ pelos 2 quartos. Felizmente aqui, deixámos de ter mosquitos a chatear-nos, pois nesta zona do país confirmámos não ser assolada por tal ameaça.

Quando descemos ao hall esperavam-nos três portugueses: O Tiago, a sua esposa Regina e a Cristina, uma amiga do casal. Como se encontram a viver em Glasgow foi com simpatia que ao saberem da nossa estadia na cidade, acederam gentilmente a mostrar-nos um pouco do zona onde nos encontrávamos e a fazer-nos companhia por algumas horas, levando-nos a jantar ao The Crystal Palace, um gigantesco e very scottish pub localizado ali próximo, onde tivemos oportunidade de provar uns ótimos bifes.

 
 
 
 
 
 
Depois do jantar, o aumentado grupo decidiu-se por uma caminhada pela zona, de onde destaco o edifício da Câmara Municipal e as lindíssimas montras das lojas ali existentes. Foi a única cidade e zona escocesa onde nos deparámos com alguma sujidade nas ruas, mas também com drogados, sem-abrigo e uma diversidade imensa de estilos de roupa e penteados. A cidade parece ter vida própria e é extremamente agitada, quer de dia quer de noite. À meia noite, qual Cinderela, já estávamos de volta aos nossos aposentos para o que pareceu ser uma rápida noite de sono.


ETAPA 7 – 09 de Junho de 2016

GLASGOW/EDINBURGH (89,730km com 518m D+)

 

O último dia da nossa travessia amanheceu um pouco nublado e com tendência para chover. Tínhamos previstas 2 opções para esta derradeira etapa: 121km - em que partíamos de Glasgow em direção à foz do rio Clyde localizada em Bowling, sempre junto às margens deste, onde depois entrávamos logo no início da NCR754; ou 95km percorrendo 7km em percurso citadino até encontrarmos a NCR754 já no seu km16. A maioria dos elementos optaram pela distância mais curta, uma vez que no dia anterior já havíamos realizado mais quilómetros do que o previsto.

Com os casacos e capas de chuva vestidos fizemos-mos ao caminho para realizar a etapa supostamente mais fácil, segundo o gráfico altimétrico, logo a seguir à que fizéramos entre Fort Augustus/Banavie. A distância necessária para sair do movimentado trânsito citadino foi feita em ritmo elevado, pois queríamos ver-nos livres de tal confusão, ainda por cima com trânsito a circular pela mão contrária à que estamos habituados. Abandonámos a cidade através do luxuriante e de verde intenso Glasgow Botanic Gardens.

 


Seguimos então na região denominada por Scottish Lowlands, sempre ao longo do Forth and Clyde Canal cujo percurso é maioritariamente asfaltado e/ou térreo com cerca de 2 metros de largura. Inicialmente e logo após a saída da cidade, este canal de água com cerca de 10 metros de largura aparenta alguma sujidade, apesar de revelar manutenção geral que confirmámos ao longo de todo o percurso, tirando escassas extensões que provavelmente estavam a aguardar intervenção.

Estes canais artificiais são utilizados para o transporte de mercadorias, para o passeio de turistas, mas também são um excelente meio de ligação aquática entre as povoações localizadas junto a eles. Ao longo do canal, por vezes passava sobre vias rodoviárias ou mesmo rios, revelando-nos maravilhosas obras de engenharia.

O ritmo por nós adotado era elevado face a outras etapas e semelhante ao final do dia anterior. Tal como previsto na nosso logística, o tipo de piso não apresentava qualquer dificuldade e, por isso, não prevíamos vir a ter problemas mecânicos. A nível altimétrico estávamos perante uma gigantesca plataforma. Quanto à paisagem era diversa, encontrámos-mos ladeados por arvoredos cerrados, erva baixa, uma ou outra vez passávamos junto de povoações e principalmente passámos debaixo de dezenas de pontes.

O movimento no canal era por vezes intenso, com bastante trânsito de embarcações bastante baixas e compridas, género bateau-mouche mas extremamente estreitos. De imediato me veio à memória o filme "Young Adam" datado de 2003, cujo protagonista é Ewan McGregor, o qual vira há anos e que posteriormente vim a confirmar que foi filmado aqui mesmo nos canais que estávamos a seguir nesta última etapa.

 
 
A tão receada chuva afinal nunca chegou a passar de alguns meros chuviscos, mas junto ao canal estava uma aragem bastante fria, quase gélida, o que me fez vestir pela primeira vez em toda jornada o meu quentinho casaco de equipamento de inverno. Fomos comendo em andamento e as paragens eram raras. Também nunca saímos do percurso, pois não houve necessidade disso.

 
 
Ao km40 abandonámos o Forth and Clyde Canal e passámos a seguir junto do Union Canal. O local em questão, nomeado de Falkirk Wheel Basin, alberga um original e gigantesco projeto de engenharia moderna. Trata-se de um elevador giratório para barcos que transfere as embarcações entre os dois nomeados canais, cujos leitos estão aqui separados por 35 metros de altura entre um e outro.  O local estava extremamente invadido de turistas. Ali junto existe uma estrutura de apoio, onde no interior encontrámos um moderno restaurante, aproveitando para almoçar e assistir ao funcionamento do elevador aquático.

 
Já com o estômago cheio, tivemos logo ali a única subida digna do nome durante todo o percurso. O trilho continuou idêntico ao que tínhamos percorrido até ali. Poucos quilómetros adiante tivemos o ponto alto do dia, quando percorremos uma extensão de aproximadamente 630 metros dentro de um túnel que foi terminado em 1822, possuindo mais de 3,5 metros de altura, cujo teto é maioritariamente rochoso, todo ele bastante húmido e escorrendo água pelas paredes e tetos. O seu interior possui uma escassa mas suficiente iluminação elétrica e um pequeno gradeamento é a única coisa que nos separa de um banho.

 
Prosseguindo caminho, começou a ser com frequência que o caminho mais parecia um bosque, dada a quantidade e tamanho da vegetação envolvente. Por vezes passámos junto de pequenos largos de água onde se encontravam parqueados diversas embarcações, quase todas elas idênticas em tamanho e estrutura. Regularmente cruzámos ou ultrapassámos outros utilizadores desta via, a pé, a correr ou de bicicleta.


As zonas mais complicadas que fomos encontrando era quando o canal se transformava numa ponte, diminuindo o espaço da zona ciclável, o qual era quase sempre empedrado nestas pontes e também um pouco escorregadio. Há ali partes em que passamos junto de casarios que nos fazem pensar estarmos na Holanda e não na Escócia. Ao longo de todo o dia nunca chegámos a ver o sol, mas também não apanhámos chuvas. Esteve um dia algo escuro e triste.

Finalmente chegámos a Edinburgh e o track afastou-nos do canal, levando-nos a descer uma escadaria em madeira e depois seguir por uma plataforma também em madeira, que estava especialmente escorregadia e que ainda nos pregou uns sustos, entrando assim nos Saughton Park Gardens que nos despejou numa movimentada rodovia do centro da cidade, onde circulámos por mais alguns quilómetros até que finalmente terminámos no local onde iríamos pernoitar as próximas duas noites, nos Featherhall Garden Court Apartments, pelo montante total de 230€.

Estávamos de novo no local onde há 1 semana atrás havíamos guardado os sacos e caixa das nossas bicicletas, por isso a primeira coisa que fizemos foi confirmar se não nos haviam roubado nada, já que a casa de jardim onde guardámos as coisas, apesar de estar escondida nas traseiras dos edifícios, não tinha chave e cuja estrutura é em ferro mas toda ela fechada com vidros, sendo visível o seu interior. De facto, estava lá tudo.

 
Como optámos por pagar o montante total logo no primeiro contato pessoal que tivéramos com a proprietária há 7 dias atrás, esta decidiu ser simpática connosco e deixou-nos preparados 2 apartamentos maiores do que os que estavam previstos, situados no 2.º e último andar do edifício, com uma ante porta comum que nos permitia andarmos mais à vontade, parecendo assim que se tratava de um único apartamento de 4 quartos, mas com 2 casas de banho e 2 kitchenettes.

 Deixámos a preparação das bicicletas para o dia seguinte e aproveitámos para ir passear ao final do dia pelas redondezas. Como estávamos alojados a cerca de 5,5km do centro de Edimburgo, decidimos que iríamos lá no dia seguinte, mas de autocarro. Ali bem próximo de nós descobrimos um satisfatório supermercado, um restaurante tipo rodízio (Toby Carvery) do qual ficámos fã e onde além de haver recuperado o peso perdido ainda ganhei extra, alguns pub's, um Mc Donald's, uma estação de serviço e lavagem, enfim... estávamos desenrascados!


EPÍLOGO
No último dia da nossa estadia levantámos-mos um pouco mais tarde do que já habitual. A primeira tarefa foi lavar as bicicletas na estação de serviço ali próxima, a que se seguiu a desmontagem e embalamento. Já com tudo orientado, ligámos para uma empresa de táxis e reservámos desde logo 2 táxis de seis lugares para nos virem buscar às 04h45 da madrugada seguinte e nos transportarem ao aeroporto.

Apanhámos um autocarro e fomos passear para o movimentado centro de Edimburgo, pejado de turistas. Visitámos diversos locais e monumentos. No Calton Hill, sobranceiro à cidade tem-se uma vista magnífica sobre tudo o que nos rodeia e onde encontrámos vestígios portugueses sob a forma de uma antigo canhão. Em redor muitos outros monumentos pedem também a nossa atenção. O castelo de Edimburgo apreciámo-lo do interior do Princes Street Gardens. Como não podia deixar de ser aproveitámos também para comprar os últimos souvenirs antes de voltarmos aos apartamentos.

 
Às 04h00 os despertadores começaram um a um a tocar. Como por aqui, pelo menos nesta altura do ano, nunca fica realmente noite escura, nem parecia ser tão cedo e, na realidade, o dia estava já a clarear. Rapidamente arrumámos as últimas coisas e tomámos o pequeno almoço. Às 04h40 já os dois táxis Mercedes Vito aguardavam na estrada particular de acesso aos nossos apartamentos, para nos levarem ao aeroporto onde teríamos a ligação às 07h30. Infelizmente as duas carrinhas táxi foram insuficientes para tanta bagagem e passageiros, sendo obrigados a chamar uma terceira carrinha táxi... foi tudo à grande para terminar a aventura! Já no aeroporto e até ao nosso embarque começou e manteve-se a chover desenfreadamente. Parecia que a Escócia estava a chorar pela nossa partida. Estava na hora de voltar para as nossas famílias e empregos, com menos dinheiro mas um pouquinho mais ricos por mais esta magnífica experiência pessoal. É de facto fabuloso poder conhecer um país de bicicleta!


Post Scriptum
Já nós havíamos regressado há 3 semanas quando, os Escoceses cheios de saudades nossas, nos escreveram uma carta. Surpresa das surpresas: era uma multa de velocidade! Citando o Vítor Campos: "- De nada nos valeu a foto com os Polícias Escoceses!" Fecho assim o relato da nossa aventura, já com planos para a próxima...


 


AGRADECIMENTOS/APOIOS
Loja Biciaventura em Estremoz, que revisionou e preparou as nossas Cannondale.
Revista Freebike, onde será publicado um resumo desta aventura.
Laser Site em Entroncamento, que fabricou os nossos dorsais.
VIDEO DE RESCALDO


Créditos à reportagem:
Texto: João Valério
Fotos: Samuel Nabiça, Renato Valério, Vítor Campos, Manuel Maia e João Valério
Vídeo: Zona 55

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